Ela odiava os domingos

Uma leve brisa soprou através do vidro bagunçando seus cabelos levemente dourados. Da janela ela acompanhava o sol ir embora.

Sua avó dizia que o dia do descanso era o principal da semana e ela o adorava. Gostava dos almoços em família, da bagunça da cozinha, da gritaria em volta da mesa e de disputar o sofá para o cochilo da tarde.

Quando se conheceram ele trouxe sua presença para o domingo. Não importava se chovia ou fazia sol, era o dia deles. E eles adoravam.

Ele saia de fininho da cama e enchia a casa com o cheiro de café, sem acordá-la acendia um cigarro enquanto colocava o pão na torradeira e tentava não esquecer que ela gostava de muita manteiga na torrada e do café quente e sem açúcar.

Ela fingia que dormia toda manhã, mas gostava da sensação de ouvir os passos dele na cozinha e do assovio baixinho de alguma canção do Beatles enquanto derrubava as panelas e tirava os pratos do armário. Com o cabelo preso num coque desarrumado ela vestia a camiseta dele do avesso mesmo e sentava na mesa em frente à janela olhando a cidade acontecer.

Beijando sua testa ele sussurrava “bom-dia, guria” e como sempre acontecia ela esquecia todo o enredo e naquele momento eram eles e um domingo. Liam um livro, depois jornal.

Costumava dedilhar ao piano enquanto ele compunha no violão, com uma caneta vermelha trocava algumas palavras na letra da canção, que ele diz que um dia gravaria num álbum e que toda vez que ele cantasse em um show eu saberia que era dela. E foi.

A vitrola tocava Marvin Gaye enquanto entre um cigarro e outro ela como contava uma história boba de quando era criança e chorou porque não sabia empinar uma pipa e como sempre fazia mordeu o lábio meio tímida no final. Ele adorava quando ela fazia isso e se perdia nas histórias dela somente para vê-la mordendo o canto dos lábios.

Ele implicava que ela roubava suas melhores camisetas. Ela brigava dizendo que ele precisava largar o cigarro. Ele lavava a louça e ela escrevia um poema em seu moleskine. Ela passava por ele na sala e ela a puxava para dançar e era assim, meio preguiçoso e cheio de dengo, que o domingo deles acontecia.

Ela agora odiava os domingos, não era culpa dela. Era dele.

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