Ela odiava os domingos

Uma leve brisa soprou através do vidro bagunçando seus cabelos levemente dourados. Da janela ela acompanhava o sol ir embora.

Sua avó dizia que o dia do descanso era o principal da semana e ela o adorava. Gostava dos almoços em família, da bagunça da cozinha, da gritaria em volta da mesa e de disputar o sofá para o cochilo da tarde. Continuar lendo “Ela odiava os domingos”

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Para os amantes do Copan

Então, lembra daquela ideia de mais de um ano atrás? Aquela de abandonar meu emprego e escrever um livro? Saiu da cabeça e foi para o papel.

Precisei abandonar mais que meu emprego. Precisei deixar um lugar que amo, mudar de país, viver algumas coisas lindas longe de casa para tomar coragem de mergulhar nesse projeto que segue em paralelo com meu blog sobre o Copan.

Caro Niemeyer é uma coleção de cartas que comecei há alguns anos quando me mudei para o Copan. Comecei a escrever como uma forma de eu me expressar em um sentido literário – não só para o homem que criou este prédio – mas uma maneira que encontrei de compartilhar meus pensamentos com qualquer um. Ao invés de começar um algo como um diário chato e sentimental eu escolhi escrever cartas para Oscar Niemeyer.

Te convido a conhecer e mergulhar no meu projeto novo, a receber as cartas que escrevi à ele. Te convido a seguir o blog e curtir a page!

 

http://www.dearniemeyer.wordpress.com

 

Prelúdio da morte

Meu nome é Mariana Cordoba. Até meus dezesseis anos, costumava ser André Santos. Meus amigos me chamavam de Dé, desde bem pequeno.

Não sei direito quando tudo isso aconteceu. Vou contar a última coisa que me lembro do mundo de antes. Descobri que meu namorado estava ficando com várias “garotas “ por aí. Meninas siliconadas, de longos apliques nos cabelos e unhas vermelhas. Me senti tão arrasada.

Peguei ele no corredor, flertando com a vizinha do 315. Corri pelos corredores do bloco D enlouquecidamente.  Moro no 918B e lá me tranquei me entupindo de calmantes, drogas e cigarros e sempre pensando em cortar os pulsos.

Dois ou três, quem sabe quatro, dias depois me senti muito mal. Estava fraca, meu peito doía e tossia muito. Bianca, minha vizinha e companheira de programa, me levou ao médico que depois de me examinar me aconselhou a fazer um exame de HIV.

Meses se passaram, não sei como não escutei a gritaria. Quem sabe os fones de ouvido e a montanha de cobertor e lençois tenham mesmo abafado tudo. Quem sabe o monte de remédios que misturei e tomei. Quem sabe os cortes que fiz nos meus braços. Quem sabe só o meu orgulho ferido. O sangue secou, manchou a cama e as cobertas e eu não morri pelos cortes ou pelos remédios.

Algumas lembranças voltam, mas é tudo muito embaçado, misturado. O telefone tocando, a voz Bianca me perguntando aflita onde eu estava e mandando não sair de casa. Seriam gritos no corredor? Sirene dos bombeiros, ambulâncias. Alguma TV no volume máximo, quem sabe?

Levei um tempo para conseguir sair da cama.  Me vesti com meu melhor vestido, o vermelho de cetim, presente de um cliente rico. Onde eu estava com a cabeça para tentar suicídio de pijamas? Fiquei um pouco envergonhada com minha atitude.

“Ainda estou viva” pensei enquanto passava o pente pelo aplique barato e embaraçado. Os cortes do meu pulso voltaram a sangrar. Tomo um gole de vinho,  zonza, derrubo a taça de no chão e o líquido escorre pelo assoalho.

Reparo que lá fora está tudo realmente silencioso, quieto demais para o centro da cidade. Estranho. Sinto um arrepio passeando pela minha espinha.Com as mãos trêmulas acendo o cigarro e dou um longo trago, o último da minha vida.

“Finalmente, me livrei do vicio”  disse a mim mesma enquanto caminhava até a enorme janela de vidro para ver o movimento dos vizinhos.  Me debruço na janela, respiro fundo e olho para o céu. Uma noite estrelada e quente.

“Uma noite perfeita para morrer” falei em voz alta. Um baque no corredor faz com que eu me assuste. Meus pulsos cortados alcançam as cortinas brancas deixando marcas de sangue. Olho para meu apartamento bagunçado e imundo.  Naquele dia  tinha acordado para morrer e antes de me chocar ao concreto apenas balbuciei:  Beije meus olhos e me ponha pra dormir.  

Deixa queimar …

A voz melosa de Adele soava pelas caixas de som quando ele chegou. Perdida nos acordes de Set Fire to the rain, terminava de fazer o jantar, não esperava que ele chegasse tão cedo.

Estava com suas roupas embaladas da lavanderia numa das mãos e a mochila do laptop em outra. Descalça na pequena cozinha me virei para encarar seus olhos azuis penetrantes que faziam minha espinha gelar, fazia poucas semanas que estávamos juntos e eu ainda não tinha acostumado com as sensações que ele despertava no meu corpo só com seu olhar.

– Oi, ele disse baixinho enquanto abri espaço para ele na cozinha. – O cheiro aqui está uma delícia.

– Espero que esteja com fome. Fiz um monte de comida, e bem, você sabe que quase não como nada.

Caleb sorriu, beijou minha testa e sem dizer nada caminhou pelo corredor para deixar suas coisas em cima da mesa de centro. Procurou meus olhos quando voltou para a cozinha – Trouxe algumas coisas para passar a noite aqui, mas posso ir embora se você quiser. A qualquer hora. É só dizer.

Enquanto mexia o molho de tomate apenas sussurrei – Quero que você fique.

– Posso te abraçar? Ele disse já bem próximo de mim.

Me virei largando a colher de pau na pia e o apertei bem forte. – Por favor.

Tinha sido um dia difícil, a pressão do trabalho, a correria para cumprir a extensa lista de tarefas e ainda lidar com o pavor que me possuía cada vez que pensava na relação que eu e Caleb estávamos vivendo.

Tudo aconteceu depressa demais. Parecia que conhecia ele por anos, quando na verdade fazia apenas 4 semanas que ele havia me ajudado a levantar do chão após um tombo ridículo no hall de entrada do prédio onde trabalhava. Meu grande medo era que ele fugisse, comigo era assim, todo mundo ia embora e sempre na melhor parte da história.

Já tinha de alguma maneira ( e muita terapia) aprendido a conviver com isso. Mas Caleb era diferente, eu queria que ele ficasse, mais do que deveria, mais do que poderia imaginar. Sua pele branca tatuada, sua barba por fazer e seus cabelos ruivos desalinhados me tiravam o fôlego.

– Você está bem? Sua voz suave e refinada me despertou dos meus pensamentos.

– Sim, dia difícil apenas.

Piscando para acordar melhor do meu delírio. Eu o soltei do abraço, sentamos para comer em frente à TV e carregando nossas taças de vinho. Passamos boas horas assim, trocando de canal e rindo dos nomes dos realitys shows e programas dos canais de televisão. Ele usava calça larga de agasalho velha e camiseta justa, e em um dado momento eu me peguei apreciando aquela vista. Eu era ou não era uma garota de sorte?

Ele olhou para mim, ainda sorrindo, e meu coração disparou dentro do meu peito. Naquele momento éramos apenas um casal se divertindo em casa com algumas taças de vinho e um controle remoto. Ele era simplesmente meu namorado, nada mais. Tudo parecia gostoso e descomplicado, o tipo de ilusão que tinha um enorme apelo para mim.

Caleb e eu decidimos que já estava na hora de dormir, e fomos escovar os dentes. Apoie-me na pia e cruzei os braços enquanto via ele se apossar de meu banheiro. Era bem isso que eles estava fazendo: deixando claro para qualquer um que entrasse ali que havia, finalmente, um homem na minha vida.

Foi aí que me dei conta de que o mesmo estava acontecendo comigo em relação a ele. Sentei na cama ainda perdida nos meus pensamentos quando o som da voz dele me fez virar e encontrar seus olhos azuis penetrantes.

– Está errado, tudo errado. Temos que admitir que infelizmente você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você.

Surpresa e ainda digerindo o mix das palavras dele misturados com aqueles olhos e as mãos que me seguravam firmemente, respondi:

– Não, eu não preciso.

– Sim, você precisa, admita.

– Não, aí, quer parar de repetir isso, chega. Eu não preciso e ponto final.

Ele aproximou seu corpo do meu e pegou em meu rosto:

– Todo mundo precisa. Você precisa de alguém que cuide de você.

– Ok, quer saber, tem razão, eu preciso. Preciso e muito de você. Admito, mas não posso exigir nada.

– Mas você nunca exigiu. Faz sentido agora?

– Sim, faz. Ah, quer saber não importa se vou ter dez mil momentos iguais a estes ou se vai ser somente este. Sabe por quê? Simplesmente para mim, isso não faz diferença alguma no que sinto por você. Eu te amo mesmo se você for embora. E é isso, este é o presente e ele é meu, entende? É meu momento. Somos apenas nós, eu e você sentados aqui admitindo que um precisa do outro mesmo se um dia você fechar a porta ao dizer boa noite e for embora.

Ainda estava sob efeito do seu toque e de seus olhos que não piscavam e continuei falando. O som da minha voz era de desespero:

– Caleb, você vai continuar me amando mesmo que continue sendo teimosa? Vai continuar me amando quando reclamar que a casa tá bagunçada e que toalha molhada deve ficar pendurada no banheiro e não jogada em cima da cama? Vai continuar me amando quando acordar pela manhã com os cabelos bagunçados e dizer que é seu dia de fazer o café? Vai continuar me amando mesmo que mande você embora no meio da noite? Continuará me amando quando eu sentir medo de andar de moto e insistir que um carro é mais seguro? Vai continuar me amando quando não tiver mais palavras para brigar por coisas bobas só para te obrigar a pedir desculpas e comemorar as pazes? Você vai continuar me amando mesmo que reclame que você nunca acerta qual é meu chocolate preferido e nem que mudei o corte do cabelo? Vai continuar me amando mesmo que te mantenha acordado só para curtir uma noite insone ao meu lado? Vai continuar me amando quando a noite encontrar o sol da manhã? Me diga isso agora porque não perguntarei novamente amanhã.

Ele me calou com um beijo. Daqueles que as pernas amolecem e o coração se contorce.

Era para ser uma noite como outra qualquer, mas não foi, porque naquele dia deixamos o medo para trás. Caleb deitou-se ao meu lado e ficou. Porque às vezes você conhece milhares de pessoas e nenhuma delas mexe com você, mas de repente, num dia qualquer você conhece alguém especial, você escolhe ficar e a sua vida muda para sempre.