Prelúdio da morte

Meu nome é Mariana Cordoba. Até meus dezesseis anos, costumava ser André Santos. Meus amigos me chamavam de Dé, desde bem pequeno.

Não sei direito quando tudo isso aconteceu. Vou contar a última coisa que me lembro do mundo de antes. Descobri que meu namorado estava ficando com várias “garotas “ por aí. Meninas siliconadas, de longos apliques nos cabelos e unhas vermelhas. Me senti tão arrasada.

Peguei ele no corredor, flertando com a vizinha do 315. Corri pelos corredores do bloco D enlouquecidamente.  Moro no 918B e lá me tranquei me entupindo de calmantes, drogas e cigarros e sempre pensando em cortar os pulsos.

Dois ou três, quem sabe quatro, dias depois me senti muito mal. Estava fraca, meu peito doía e tossia muito. Bianca, minha vizinha e companheira de programa, me levou ao médico que depois de me examinar me aconselhou a fazer um exame de HIV.

Meses se passaram, não sei como não escutei a gritaria. Quem sabe os fones de ouvido e a montanha de cobertor e lençois tenham mesmo abafado tudo. Quem sabe o monte de remédios que misturei e tomei. Quem sabe os cortes que fiz nos meus braços. Quem sabe só o meu orgulho ferido. O sangue secou, manchou a cama e as cobertas e eu não morri pelos cortes ou pelos remédios.

Algumas lembranças voltam, mas é tudo muito embaçado, misturado. O telefone tocando, a voz Bianca me perguntando aflita onde eu estava e mandando não sair de casa. Seriam gritos no corredor? Sirene dos bombeiros, ambulâncias. Alguma TV no volume máximo, quem sabe?

Levei um tempo para conseguir sair da cama.  Me vesti com meu melhor vestido, o vermelho de cetim, presente de um cliente rico. Onde eu estava com a cabeça para tentar suicídio de pijamas? Fiquei um pouco envergonhada com minha atitude.

“Ainda estou viva” pensei enquanto passava o pente pelo aplique barato e embaraçado. Os cortes do meu pulso voltaram a sangrar. Tomo um gole de vinho,  zonza, derrubo a taça de no chão e o líquido escorre pelo assoalho.

Reparo que lá fora está tudo realmente silencioso, quieto demais para o centro da cidade. Estranho. Sinto um arrepio passeando pela minha espinha.Com as mãos trêmulas acendo o cigarro e dou um longo trago, o último da minha vida.

“Finalmente, me livrei do vicio”  disse a mim mesma enquanto caminhava até a enorme janela de vidro para ver o movimento dos vizinhos.  Me debruço na janela, respiro fundo e olho para o céu. Uma noite estrelada e quente.

“Uma noite perfeita para morrer” falei em voz alta. Um baque no corredor faz com que eu me assuste. Meus pulsos cortados alcançam as cortinas brancas deixando marcas de sangue. Olho para meu apartamento bagunçado e imundo.  Naquele dia  tinha acordado para morrer e antes de me chocar ao concreto apenas balbuciei:  Beije meus olhos e me ponha pra dormir.  

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Um 2013 Copan para você!

Em 2012 muita coisa aconteceu no Copan:

– Ele ganhou entre seus novos moradores uma eterna apaixonada pelo edíficio: euzinha!

– Ele foi destaque de um programa de televisão

– Ele ganhou algumas brigas bobas em grupos do Facebook

– Ele uniu muitas pessoas

– Seus corredores esconderam alguns amores impossíveis

– Algumas pessoas encontraram a felicidade no apartamento ao lado

– Outras pessoas disseram adeus ao condomínio

– Perdemos o porteiro mais querido: Volta, Chico!

– Presenciamos alguns barracos

– Sediamos algumas festas

– Deitamos e rolamos nos breezes proibidos

– Enchemos o síndico de reclamações

– Ganhamos uma galeria de arte

– Estrelamos vários comerciais de TV

– Ganhamos um episódio de uma mini-série da Rede Globo ( acho que não foi esse ano, mas ok!)

– Perdemos nosso grande projetista: Oscar Niemeyer

Para o próximo ano continuamos esperando por muitas coisas, mas uma coisa não muda: nossa enorme paixão por morar aqui!

Em 2013 esse espaço vai ganhar novos colaboradores e um grande projeto vai começar. Se você mora aqui ( ou não) e é apaixonado pelo Copan, deixe seu contato nos comentários e venha nos ajudar a contar história daquele que é um dos cartões-postais mais lindos de SP!

Deixa queimar …

A voz melosa de Adele soava pelas caixas de som quando ele chegou. Perdida nos acordes de Set Fire to the rain, terminava de fazer o jantar, não esperava que ele chegasse tão cedo.

Estava com suas roupas embaladas da lavanderia numa das mãos e a mochila do laptop em outra. Descalça na pequena cozinha me virei para encarar seus olhos azuis penetrantes que faziam minha espinha gelar, fazia poucas semanas que estávamos juntos e eu ainda não tinha acostumado com as sensações que ele despertava no meu corpo só com seu olhar.

– Oi, ele disse baixinho enquanto abri espaço para ele na cozinha. – O cheiro aqui está uma delícia.

– Espero que esteja com fome. Fiz um monte de comida, e bem, você sabe que quase não como nada.

Caleb sorriu, beijou minha testa e sem dizer nada caminhou pelo corredor para deixar suas coisas em cima da mesa de centro. Procurou meus olhos quando voltou para a cozinha – Trouxe algumas coisas para passar a noite aqui, mas posso ir embora se você quiser. A qualquer hora. É só dizer.

Enquanto mexia o molho de tomate apenas sussurrei – Quero que você fique.

– Posso te abraçar? Ele disse já bem próximo de mim.

Me virei largando a colher de pau na pia e o apertei bem forte. – Por favor.

Tinha sido um dia difícil, a pressão do trabalho, a correria para cumprir a extensa lista de tarefas e ainda lidar com o pavor que me possuía cada vez que pensava na relação que eu e Caleb estávamos vivendo.

Tudo aconteceu depressa demais. Parecia que conhecia ele por anos, quando na verdade fazia apenas 4 semanas que ele havia me ajudado a levantar do chão após um tombo ridículo no hall de entrada do prédio onde trabalhava. Meu grande medo era que ele fugisse, comigo era assim, todo mundo ia embora e sempre na melhor parte da história.

Já tinha de alguma maneira ( e muita terapia) aprendido a conviver com isso. Mas Caleb era diferente, eu queria que ele ficasse, mais do que deveria, mais do que poderia imaginar. Sua pele branca tatuada, sua barba por fazer e seus cabelos ruivos desalinhados me tiravam o fôlego.

– Você está bem? Sua voz suave e refinada me despertou dos meus pensamentos.

– Sim, dia difícil apenas.

Piscando para acordar melhor do meu delírio. Eu o soltei do abraço, sentamos para comer em frente à TV e carregando nossas taças de vinho. Passamos boas horas assim, trocando de canal e rindo dos nomes dos realitys shows e programas dos canais de televisão. Ele usava calça larga de agasalho velha e camiseta justa, e em um dado momento eu me peguei apreciando aquela vista. Eu era ou não era uma garota de sorte?

Ele olhou para mim, ainda sorrindo, e meu coração disparou dentro do meu peito. Naquele momento éramos apenas um casal se divertindo em casa com algumas taças de vinho e um controle remoto. Ele era simplesmente meu namorado, nada mais. Tudo parecia gostoso e descomplicado, o tipo de ilusão que tinha um enorme apelo para mim.

Caleb e eu decidimos que já estava na hora de dormir, e fomos escovar os dentes. Apoie-me na pia e cruzei os braços enquanto via ele se apossar de meu banheiro. Era bem isso que eles estava fazendo: deixando claro para qualquer um que entrasse ali que havia, finalmente, um homem na minha vida.

Foi aí que me dei conta de que o mesmo estava acontecendo comigo em relação a ele. Sentei na cama ainda perdida nos meus pensamentos quando o som da voz dele me fez virar e encontrar seus olhos azuis penetrantes.

– Está errado, tudo errado. Temos que admitir que infelizmente você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você.

Surpresa e ainda digerindo o mix das palavras dele misturados com aqueles olhos e as mãos que me seguravam firmemente, respondi:

– Não, eu não preciso.

– Sim, você precisa, admita.

– Não, aí, quer parar de repetir isso, chega. Eu não preciso e ponto final.

Ele aproximou seu corpo do meu e pegou em meu rosto:

– Todo mundo precisa. Você precisa de alguém que cuide de você.

– Ok, quer saber, tem razão, eu preciso. Preciso e muito de você. Admito, mas não posso exigir nada.

– Mas você nunca exigiu. Faz sentido agora?

– Sim, faz. Ah, quer saber não importa se vou ter dez mil momentos iguais a estes ou se vai ser somente este. Sabe por quê? Simplesmente para mim, isso não faz diferença alguma no que sinto por você. Eu te amo mesmo se você for embora. E é isso, este é o presente e ele é meu, entende? É meu momento. Somos apenas nós, eu e você sentados aqui admitindo que um precisa do outro mesmo se um dia você fechar a porta ao dizer boa noite e for embora.

Ainda estava sob efeito do seu toque e de seus olhos que não piscavam e continuei falando. O som da minha voz era de desespero:

– Caleb, você vai continuar me amando mesmo que continue sendo teimosa? Vai continuar me amando quando reclamar que a casa tá bagunçada e que toalha molhada deve ficar pendurada no banheiro e não jogada em cima da cama? Vai continuar me amando quando acordar pela manhã com os cabelos bagunçados e dizer que é seu dia de fazer o café? Vai continuar me amando mesmo que mande você embora no meio da noite? Continuará me amando quando eu sentir medo de andar de moto e insistir que um carro é mais seguro? Vai continuar me amando quando não tiver mais palavras para brigar por coisas bobas só para te obrigar a pedir desculpas e comemorar as pazes? Você vai continuar me amando mesmo que reclame que você nunca acerta qual é meu chocolate preferido e nem que mudei o corte do cabelo? Vai continuar me amando mesmo que te mantenha acordado só para curtir uma noite insone ao meu lado? Vai continuar me amando quando a noite encontrar o sol da manhã? Me diga isso agora porque não perguntarei novamente amanhã.

Ele me calou com um beijo. Daqueles que as pernas amolecem e o coração se contorce.

Era para ser uma noite como outra qualquer, mas não foi, porque naquele dia deixamos o medo para trás. Caleb deitou-se ao meu lado e ficou. Porque às vezes você conhece milhares de pessoas e nenhuma delas mexe com você, mas de repente, num dia qualquer você conhece alguém especial, você escolhe ficar e a sua vida muda para sempre.

Setembro, seu terror

Odiava os dias de Setembro não apenas por ser seu inferno astral. Setembro era mais que isso. Era seu maior pavor.

O mês nove do calendário era mais temido que a fatura do seu cartão de crédito. Em setembro viveu as coisas mais lindas da sua vida e as mais aterrorizantes também.

Foi em uma manhã de setembro que deu bom dia a quem um dia foi à única pessoa que pode dizer que amou. Também  foi neste mês que essa mesma pessoa lhe roubou um beijou e todo seu juízo.

Em Setembro mudou de emprego, em Setembro mudou de cidade, em Setembro disse um Sim do tamanho do mundo e passou a desfilar com dois anéis dourados no dedo anelar direito.

Foi também neste mês que fez os planos mais lindos que imaginou para sua vida. Nas noites ainda geladas de fim de inverno, deitava na cama planejando o que achava que seria seu futuro. Pensou em vestidos, festas, convidados, decoração. Imaginou uma casa de janelas azuis e seus seis filhos correndo pela varanda.

Setembro trouxe amor, mas trouxe também traição, mágoa, planos frustrados, mentiras expostas e dor, muita dor.

Demorou a fazer as pazes com o mês nove. Por algum tempo os dias de setembro chegavam trazendo lembranças que não conseguia assimilar, entender e se despedir. Hoje, vive uma relação de amor e ódio por Setembro. Viveu nele grandes transformações.

Mentalmente, rasgou Setembro do calendário e sorriu para Outubro, mês lindo, mês quente, colorido e doce. Mês que faz aniversário. Mês que coisas boas sempre acontecem.

Boa noite, solidão

Passou o dia todo a sós com seus pensamentos. Vagou pelo corredor do seu pequeno apartamento querendo acostumar novamente com a ideia de que de a solidão poderia ser sua melhor amiga.

Por um tempo foi. Não mais.

Estar só era algo que aprendeu a apreciar bastante até descobrir – também sozinha – que seus dias em paz com a solidão estavam perto de acabar.

Sua vida de solteira já não está fazendo tanto sentido. Nada é eterno, nem mesmo a companhia que começava a desejar, sabia disso. Apenas passou a desejar alguém que pudesse acordá-la com um abraço e fizesse seu dia mais feliz.

Quer a alegria dos finais de semana juntinhos, as expectativas dos planos construídos, o grito de “gol” estremecendo a casa quando o time dele estiver ganhando… a cumplicidade em dividir os segredos.

Quer a certeza de abrir a porta de casa e saber que mesmo ele não estando, chegará a qualquer momento trazendo um sorriso torto e um abraço apertado.

Quer provar pra si mesmo o que Jobim já costumava cantar em suas canções: fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinha!