Senta e toma um café. Por que o mundo acabou faz tempo

Seu nome era Alice, mas queria mesmo chamar Melissa. Pintou o cabelo de pink aos quinze anos porque preferia “debutar” a la rebelde do que a princesinha nojenta de cabelo loiro escovado.Trocou sua coroa e vestido rodado por um piercing e duas tatuagens o que quase matou seus pais de infarto.Era contra o comum.

Enquanto suas amigas comentavam sobre Menudos e Rick Martin ela se concentrava nos vinis do Stones e Ramones. Deu seu primeiro beijo no mesmo dia que comemorou o primeiro porre de sua vida em companhia de um garoto bad boy bem mais velho que ela.

Trocou o pink dos cabelos pelo roxo aos dezessete porque era uma cor mais rebelde para a época. Fumou seu primeiro cigarro ilícito, passou a imitar as caras e bocas da Madonna no quarto e pendurou um pôster de Joan Jett na parede.

Com dezoito se tornou groupie de uma banda de rock da cidade, aos dezenove fez sua terceira tatuagem e resolveu colocar mais um piercing. Trocou o all star por coturnos pretos, passou a tocar guitarra.

Com vinte montou sua primeira banda de rock. Seu primeiro show foi aos vinte dois e seu primeiro livro foi lançado aos vinte quatro anos. Aos vinte e seis teve sua primeira overdose por excesso de anfetaminas e foi parar no hospital.

Casou com um rockstar quando tinha trinta anos. Teve sua primeira filha com trinta e seis. Foi traída em rede nacional no dia que comemorou trinta e nove anos.

Aos quarenta e dois mudou de cidade e lançou um novo romance. Aos 56 socorreu sua filha do primeiro porre, sentou a pobre garota em um sofá gasto da sala, deu um trago no cigarro e esbravejou: Senta aqui, toma um café forte porque o mundo acabou faz tempo.

Morreu de câncer aos 68. Morte carnal porque seu espírito estava morto desde o dia que desejou se chamar Melissa e não Alice.

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Onde os anjos temem ir

Abriu os olhos com dificuldade, o corpo todo doía e o único som que conseguia ouvir era do monitor cardíaco do seu lado. Tentou mexer os braços, mas emaranhados de fios o prendiam, as pernas ela não sentia e só percebeu que existia um tubo em sua garganta quando tentou gritar e não conseguiu.

O que tinha acontecido? Como tinha ido parar ali? Não lembrava de nada. Fechou os olhos novamente e tentou recuperar a memória. Alguns flashes começaram a aparecer, ela saindo apressada de casa, procurando as chaves na bolsa e um caminhão desgovernado vindo em sua direção. Então, era isso, tinha batido com seu carro e agora estava ali, naquele lugar frio e escuro.

Cansada, parecia ouvir a voz de uma criança dizendo:

– Devíamos comprar confetes para quando a tia Ceci acordar

– Querido, tia Ceci está muito doente

– Eu sei, mas lembra quando ganhei o campeonato de futebol na escola? E fiz o gol da vitória? Lembra como foi? Acho que vai ser exatamente assim quando a tia Ceci acordar. Devíamos comprar confetes.

As vozes continuavam e agora sentia perto dela um homem dizendo:

– Não sei se existe céu, mas sei que existe um plano para isso. De alguma maneira no meu céu somos somente nós. Você e eu, eles devem ter um plano para fazer isso acontecer.

Confusa, lembrou que as melhores histórias que já ouviu ou contou falam a respeito da força de vontade, são sobre determinação e coragem nas situações de grande adversidade, mostra a vontade de vencer, de lutar, da vontade de sobreviver. Grande parte dos filmes nos ajudam a lembrar porque estamos aqui e de como preciosa e bem precária é a vida, mas acima de tudo, nos faz admitir o quanto somos sortudos por termos uns aos outros.

Foi ainda com as vozes das pessoas que amavam ecoavam na sua mente que acordou.  Enquanto enfermeiras e médicos tiravam os emaranhados de fios ligados em seu corpo comemorando um milagre ela respirou fundo certa da sorte que tinha.

Não sabia

Ainda estava escuro quando o despertador tocou anunciando que havia chegado a hora. Sonolenta saiu debaixo do cobertor e alcançou o interruptor para acender a luz, bem tranquilamente trocou de roupa, tomou sua caneca de café fumegante, escovou os dentes e saiu pela porta da sala pronta para enfrentar o que viria pela frente.
O que ela não sabia era que naquele dia ela tinha acordado para morrer.