A menina que perseguiu o coelho, bebeu o vinho e tomou a pílula

Seu nome era Alice. Também conhecida como “a garota do país da fantasia” pelas colegas da escola.

Desde criança gostava de imaginar que sua vida era um grande e ilustrado livro, onde personagens enigmáticos, príncipes encantados e bruxas malévolas tinham seus destinos cruzados em histórias desenhadas por ela.

Não era qualquer personagem que habitava sua história. Estava sempre envolvendo as mais confusas pessoas em enredos cada vez mais imaginários (ou não)! Nos capítulos do seu livro não existiam finais felizes.

O príncipe encantado era o cafajeste que azarava todas nas tabernas da floresta e as bruxas malévolas eram as melhores amigas que davam em cima do príncipe.  Os amores narrados em sua história não saiam do lugar e só faziam rastejar os corações.

A ironia de sua história era ela ser a protagonista de todo seu livro. Era seu cabelo loiro, suas bochechas rosadas e seus olhos castanhos esverdeados que cobriam as páginas brancas do que ela insistia em dizer que era a vida.

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Senta e toma um café. Por que o mundo acabou faz tempo

Seu nome era Alice, mas queria mesmo chamar Melissa. Pintou o cabelo de pink aos quinze anos porque preferia “debutar” a la rebelde do que a princesinha nojenta de cabelo loiro escovado.Trocou sua coroa e vestido rodado por um piercing e duas tatuagens o que quase matou seus pais de infarto.Era contra o comum.

Enquanto suas amigas comentavam sobre Menudos e Rick Martin ela se concentrava nos vinis do Stones e Ramones. Deu seu primeiro beijo no mesmo dia que comemorou o primeiro porre de sua vida em companhia de um garoto bad boy bem mais velho que ela.

Trocou o pink dos cabelos pelo roxo aos dezessete porque era uma cor mais rebelde para a época. Fumou seu primeiro cigarro ilícito, passou a imitar as caras e bocas da Madonna no quarto e pendurou um pôster de Joan Jett na parede.

Com dezoito se tornou groupie de uma banda de rock da cidade, aos dezenove fez sua terceira tatuagem e resolveu colocar mais um piercing. Trocou o all star por coturnos pretos, passou a tocar guitarra.

Com vinte montou sua primeira banda de rock. Seu primeiro show foi aos vinte dois e seu primeiro livro foi lançado aos vinte quatro anos. Aos vinte e seis teve sua primeira overdose por excesso de anfetaminas e foi parar no hospital.

Casou com um rockstar quando tinha trinta anos. Teve sua primeira filha com trinta e seis. Foi traída em rede nacional no dia que comemorou trinta e nove anos.

Aos quarenta e dois mudou de cidade e lançou um novo romance. Aos 56 socorreu sua filha do primeiro porre, sentou a pobre garota em um sofá gasto da sala, deu um trago no cigarro e esbravejou: Senta aqui, toma um café forte porque o mundo acabou faz tempo.

Morreu de câncer aos 68. Morte carnal porque seu espírito estava morto desde o dia que desejou se chamar Melissa e não Alice.